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samedi 12 novembre 2011

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Gubaidulina - Cello Concerto No. 2

dimanche 6 novembre 2011

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Assisti esses dias. Essa é uma das melhores músicas do universo. Ponto.  (A Pele que Habito)

samedi 29 octobre 2011

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mardi 20 septembre 2011

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O que fazer quando tudo grita ao meu redor? Fico presa a uma necessidade louca de conhecimento, de entender, de possuir os objetos que me cercam. Fico presa no mundo palpável, enquanto poderia me perder em tudo que ultrapassa o conhecimento. Por que fui nascer tão cartesiana?

jeudi 25 août 2011

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Supermassive Black Hole.

vendredi 19 août 2011

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"De vez em quando a insónia vibra com a nitidez dos sinos, dos cristais. E então, das duas uma: partem-se ou não se partem as cordas tensas da sua harpa insuportável. No segundo caso, o homem que não dorme pensa: "o melhor é voltar-me para o lado esquerdo e assim, deslocando todo o peso do sangue sobre a metade mais gasta do meu corpo, esmagar o coração."


-- Carlos de Oliveira, in Sobre o Lado Esquerdo

samedi 30 juillet 2011

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- The Sleeping Dictionary

lundi 25 juillet 2011

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Lucian Freud

samedi 9 juillet 2011

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História passional, Hollywood, Califórnia - Vinicius de Moraes

Preliminarmente, telegrafar-te-ei uma dúzia de rosas
Depois te levarei a comer um shop-suey
Se a tarde também for loura abriremos a capota
Teus cabelos ao vento marcarão oitenta milhas.

Dar-me-ás um beijo com batom marca indelével
E eu pegarei tua coxa rija como a madeira
Sorrirás para mim e eu porei óculos escuros
Ante o brilho de teus dois mil dentes de esmalte.

Mascaremos cada um uma caixa de goma
E iremos ao Chinese cheirando a hortelã-pimenta
A cabeça no meu ombro sonharás duas horas
Enquanto eu me divirto no teu seio de arame.

De novo no automóvel perguntarei se queres
Me dirás que tem tempo e me darás um abraço
Tua fome reclama uma salada mista
Verei teu rosto através do suco de tomate.

Te ajudarei cavalheiro com o abrigo de chinchila
Na saída constatarei tuas nylon 57
Ao andares, algo em ti range em dó sustenido
Pelo andar em que vais sei que queres dançar rumba.

Beberás vinte uísques e ficarás mais terna
Dançando sentirei tuas pernas entre as minhas
Cheirarás levemente a cachorro lavado
Possuis cem rotações de quadris por minuto.

De novo no automóvel perguntarei se queres
Me dirás que hoje não, amanhã tens filmagem
Fazes a cigarreira num clube de má fama
E há uma cena em que vendes um maço a George Raft.

Telegrafar-te-ei então uma orquídea sexuada
No escritório esperarei que tomes sal de frutas
Vem-te um súbito desejo de comida italiana
Mas queres deitar cedo, tens uma dor de cabeça!

À porta de tua casa perguntarei se queres
Me dirás que hoje não, vais ficar dodói mais tarde
De longe acenarás um adeus sutilíssimo
Ao constatares que estou com a bateria gasta.

Dia seguinte esperarei com o rádio do carro aberto
Te chamando mentalmente de galinha e outros nomes
Virás então dizer que tens comida em casa
De avental abrirei latas e enxugarei pratos.

Tua mãe perguntará se há muito que sou casado
Direi que há cinco anos e ela fica calada
Mas como somos moços, precisamos divertir-nos
Sairemos de automóvel para uma volta rápida.

No alto de uma colina perguntar-te-ei se queres
Me dirás que nada feito, estás com uma dor do lado
Nervosos meus cigarros se fumarão sozinhos
E acabo machucando os dedos na tua cinta.

Dia seguinte vens com um suéter elástico
Sapatos mocassim e meia curta vermelha
Te levo pra dançar um ligeiro jitterbug
Teus vinte deixam os meus trinta e pouco cansados.

Na saída te vem um desejo de boliche
Jogas na perfeição, flertando o moço ao lado
Dás o telefone a ele e perguntas se me importo
Finjo que não me importo e dou saída no carro.

Estás louca para tomar uma coca gelada
Debruças-te sobre mim e me mordes o pescoço
Passo de leve a mão no teu joelho ossudo
Perdido de repente numa grande piedade.

Depois pergunto se queres ir ao meu apartamento
Me matas a pergunta com um beijo apaixonado
Dou um soco na perna e aperto o acelerador
Finges-te de assustada e falas que dirijo bem.

Que é daquele perfume que eu te tinha prometido?
Compro o Chanel 5 e acrescento um bilhete gentil
"Hoje vou lhe pagar um jantar de vinte dólares
E se ela não quiser, juro que não me responsabilizo..."

Vens cheirando a lilás e com saltos, meu Deus, tão altos
Que eu fico lá embaixo e com um ar avacalhado
Dás ordens ao garçom de caviar e champanha
Depois arrotas de leve me dizendo I beg your pardon.

No carro distraído deixo a mão na tua perna
Depois vou te levando para o alto de um morro
Em cima tiro o anel, quero casar contigo
Dizes que só acedes depois do meu divórcio.

Balbucio palavras desconexas e esdrúxulas
Quero romper-te a blusa e mastigar-te a cara
Não tens medo nenhum dos meus loucos arroubos
E me destroncas o dedo com um golpe de jiu-jítsu.

Depois tiras da bolsa uma caixa de goma
E mascas furiosamente dizendo barbaridades
Que é que eu penso que és, se não tenho vergonha
De fazer tais propostas a uma moça solteira.

Balbucio uma desculpa e digo que estava pensando…
Falas que eu pense menos e me fazes um agrado
Me pedes um cigarro e riscas o fósforo com a unha
E eu fico boquiaberto diante de tanta habilidade.

Me pedes para te levar a comer uma salada
Mas de súbito me vem uma consciência estranha
Vejo-te como uma cabra pastando sobre mim
E odeio-te de ruminares assim a minha carne.

Então fico possesso, dou-te um murro na cara
Destruo-te a carótida a violentas dentadas
Ordenho-te até o sangue escorrer entre meu dedos
E te possuo assim, morta e desfigurada.

Depois arrependido choro sobre o teu corpo
E te enterro numa vala, minha pobre namorada...
Fujo mas me descobrem por um fio de cabelo
E seis meses depois morro na câmara de gás.

vendredi 8 juillet 2011

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Prince, grande sábio, um dia disse:

Act your age, not your shoe size

e eu dou o maior apoio.

samedi 2 juillet 2011

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Aos poucos eu me esqueço das coisas. Muito do que antes fazia com que eu pensasse em fazer sentido se esvai. O que sobra é uma sensação de vazio, mas é um vazio bom, porque me diz que há espaço para coisas novas. E, ultimamente, sou totalmente nova, sou totalmente buracos e abismos, sou crateras e Big Bangs. Há um universo em formação dentro de minha barriga. A fome que tenho é de mundo e de tudo, de todos. Tenho um apetite que não controlo e que rói até mesmo meus ossos. O corpo se expande (em um breve interlúdio que, sei, será substituído por uma contração devastadora). Meus peitos se enchem de leite, para eu alimentar o mundo, para contaminar todas as moléculas com minha necessidade de explosão. 

Cubro as paredes de meu quarto com fotografias de Man Ray e Frida Kahlo. Leio sobre Anaïs Nin e me surpreendo com o tamanho de June, tão pequena e tão devastadora. Paro, petrificada, perante as páginas que falam de Miller, ou daqueles Millers, e desejo, intensamente, aquela mobília e as cores das paredes. Desejo Emilia me preparando jantares nababescos, suflês de se cair o queixo, Hugo com seu pau descomunal e Henry com sua fome de carboidratos e sua falta de escova de dentes. Desejo Sylvia Beach e Titus me mandando para editores que nunca me publicarão. Desejo aulas de dança flamenca, desejo, desejo, desejo. Desejo francês e franceses, francesas, desejo o mundo. Ah, como desejo. 

Sento aqui na sala, olhando para os copos recém-comprados e penso nas grandes reuniões, penso em um mundo para daqui a dois anos e me sinto realizada, assustada, assombrada, como diz Fernando, 

(sic) sei ter o pasmo essencial que tem a criança se, ao nascer, reparasse que nascera deveras

e é esse pasmo que ando carregando comigo. A cada dia um novo passo, uma nova etapa da grande jornada em busca de mim mesma. Os dias de descoberta têm sido incríveis. Sei que terminarão no dia de meus anos, mas também tenho pela certeza que é apenas a primeira etapa da jornada, que há mais a ser feito e mais a ser descoberto.

Volto a estudar, para tentar desemburrecer. Sei que vou me soterrar de matérias por anos, que a vida social diminuirá, que muitas coisas terão que ser postergadas, mas, ainda assim, são coisas que devo terminar. E não me assusto mais. Sei que meu corpo se prepara, sei que a luta será árdua, mas que a pele está endurecida, que a carcaça está plena para sobreviver. Nada pode me derrotar mais. E isso é uma sensação incrível, que me faz invencível e passível de esmagar cabeças e crânios. Khaleesi. É quem sou. Eu e meus dragões.

Ainda me perco, vez por outra (porque a carne é fraca), na vida de outras pessoas que não me interessam. É apenas uma forma de querer espalhar um pouco de charme pelo dia a dia, uma necessidade hedonista de atenção, um certo cabo de guerra de meu ego. Sim, ainda tenho muitas sessões de terapia e muitas coisas a aprender, mas não me nego nem os pequenos prazeres do ódio mais. (Sim, acho que a libertação do corpo está libertando também minha mente, que, aos poucos, se liberta de tanta culpa católica que havia se instalado entre minhas vértebras). Não tenho mais o menor medo de voar, não tenho mais nada. E acho que é exatamente por isso que não temo mais, pois não tenho mais nada a perder. 

E agora é tudo ou nada. Tudo ou nada. 

vendredi 1 juillet 2011

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The Veils - Bloom
She took my hand 
And now there is no other.

mercredi 22 juin 2011

Une terrible beauté est née

Há dias em que acordo melancólica. Seja pelos olhos de S. sobre meu corpo, seja simplesmente pela forma com que D. se expressa (ou faz com que eu me expresse) a respeito das coisas que vêm da alma. O que sei é que, de uma hora para a outra, por pequenos motivos, acabo perdendo a forma com que eu conseguia acessar a alma das pessoas e os relacionamentos se tornam alienígenas dentro de meu coração. 

O período tem sido muito bom, ainda que de muito sofrimento. A cada nova carta, há alguma coisa a ser descoberta e a forma com que tenho que expressá-la acaba por me fazer sofrer e chorar, de uma forma com que não consigo explicar. É realmente muito difícil ter que olhar para o abismo que me compõe.

vendredi 27 mai 2011

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Aprendi hoje.
Arvo Pärt - Cantus in memory of Benjamin Britten

jeudi 26 mai 2011

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Carrego meus livros como grandes enigmas, como misteriosos convites aos que me rodeiam nos lugares públicos. São pequenas confissões anônimas de minha personalidade, são a esperança de fazer alguém sorrir ao reconhecer a familiaridade do título. Também tento descobrir, clandestina, os hieróglifos gravados nas capas alheias, tentando, às vezes, pegar carona em alguma história fantástica passada ou um desejo futuro. O único problema é que os ecos sempre se silenciam e minhas travessias são sempre solitárias. É realmente muito difícil encontrar algo que não dissonância. 

mercredi 25 mai 2011

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Tenho dentro de mim um universo de possibilidades que desabrocham diante de meus olhos a cada segundo. e meu coração se desmancha de paixão por todos esses com quem me relaciono, seja em que aspecto for. É um eterno descobrir e um eterno me apaixonar, seja por uma forma de piscar os olhos ou por uma forma de suspirar ao se tomar café. Está sempre tudo ali e tudo isso, seja o que for, é o suficiente para me fazer dormir sorrindo e acreditar que tudo é e pode continuar sendo bom. Melhor ainda, que eu mereço tudo isso. Não tenho como escapar.

mardi 24 mai 2011

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Beethoven - Moonlight Sonata - Movimento 1

vendredi 20 mai 2011

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Francesco Sambo

jeudi 19 mai 2011

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Senhor António:

O senhor nunca há-de ver esta carta, nem eu a hei-de ver segunda vez porque estou tuberculosa, mas eu quero escrever-lhe ainda que o senhor o não saiba, porque se não escrevo abafo.

O senhor não sabe quem eu sou, isto é, sabe mas não sabe a valer. Tem-me visto à janela quando o senhor passa para a oficina e eu olho para si, porque o espero a chegar, e sei a hora que o senhor chega. Deve sempre ter pensado sem importância na corcunda do primeiro andar da casa amarela, mas eu não penso senão em si. Sei que o senhor tem uma amante, que é aquela rapariga loura alta e bonita; eu tenho inveja dela mas não tenho ciúmes de si porque não tenho direito a ter nada, nem mesmo ciúmes. Eu gosto de si porque gosto de si, e tenho pena de não ser outra mulher, com outro corpo e outro feitio, e poder ir à rua e falar consigo ainda que o senhor me não desse razão de nada, mas eu estimava conhecê-lo de falar.

O senhor é tudo quanto me tem valido na minha doença e eu estou-lhe agradecida sem que o senhor o saiba. Eu nunca poderia ter ninguém que gostasse de mim como se gostasse das pessoas que têm o corpo de que se pode gostar, mas eu tenho o direito de gostar sem que gostem de mim, e também tenho o direito de chorar, que não se negue a ninguém.
Eu gostava de morrer depois de lhe falar a primeira vez mas nunca terei coragem nem maneiras de lhe falar. Gostava que o senhor soubesse que eu gostava muito de si, mas tenho medo que se o senhor soubesse não se importasse nada, e eu tenho pena já de saber que isso é absolutamente certo antes de saber qualquer coisa, que eu mesmo não vou procurar saber.

Eu sou corcunda desde a nascença e sempre riram de mim. Dizem que todas as corcundas são más, mas eu nunca quis mal a ninguém. Além disso sou doente, e nunca tive alma, por causa da doença, para ter grandes raivas. Tenho dezanove anos e nunca sei para que é que cheguei a ter tanta idade, e doente, e sem ninguém que tivesse pena de mim a não ser por eu ser corcunda, que é o menos, porque é a alma que me dói, e não o corpo, pois a corcunda não faz dor.
Eu até gostava de saber como é a sua vida com a sua amiga, porque como é uma vida que eu nunca posso ter — e agora menos que nem vida tenho — gostava de saber tudo.

Desculpe escrever-lhe tanto sem o conhecer, mas o senhor não vai ler isso, e mesmo que lesse nem sabia que era consigo e não ligava importância em qualquer caso, mas gostaria que pensasse que é triste ser marreca e viver sempre só à janela, e ter mãe e irmãs que gostam da gente mas sem ninguém que goste de nós, porque tudo isso é natural e é a família, e o que faltava é que nem isso houvesse para uma boneca com os ossos às avessas como eu sou, como eu já ouvi dizer.

Houve um dia que o senhor vinha para a oficina e um gato se pegou à pancada com um cão aqui defronte da janela, e todos estivemos a ver, e o senhor parou, ao pé do Manuel das Barbas, na esquina do barbeiro, e depois olhou para mim, para a janela, e viu-me a rir e riu também para mim, e essa foi a única vez que o senhor esteve a sós comigo, por assim dizer, que isso nunca poderia eu esperar.

Tantas vezes, o senhor não imagina, andei à espera que houvesse outra coisa qualquer na rua quando o senhor passasse e eu pudesse outra vez ver o senhor a ver e talvez olhasse para mim e eu pudesse olhar para si e ver os seus olhos a direito para os meus.

Mas eu não consigo nada do que quero, nasci já assim, e até tenho que estar em cima de um estrado para poder estar à altura da janela. Passo todo o dia a ver ilustrações e revistas de modas que emprestam à minha mãe, e estou sempre a pensar noutra coisa, tanto que quando me perguntam como era aquela saia ou quem é que estava no retrato onde está a Rainha de Inglaterra, eu às vezes me envergonho de não saber, porque estive a ver coisas que não podem ser e que eu não posso deixar que me entrem na cabeça e me dêem alegria para eu depois ainda por cima ter vontade de chorar.

Depois todos me desculpam, e acham que sou tonta, mas não me julgam parva, porque ninguém julga isso, e eu chego a não ter pena da desculpa, porque assim não tenho que explicar porque é que estive distraída.
Ainda me lembro daquele dia que o senhor passou aqui ao Domingo com o fato azul claro. Não era azul claro, mas era uma sarja muito clara para o azul escuro que costuma ser. O senhor ia que parecia o próprio dia que estava lindo e eu nunca tive tanta inveja de toda a gente como nesse dia. Mas não tive inveja da sua amiga, a não ser que o senhor não fosse ter com ela mas com outra qualquer, porque eu não pensei senão em si, e foi por isso que invejei toda a gente, o que não percebo mas o certo é que é verdade.

Não é por ser corcunda que estou aqui sempre à janela, mas é que ainda por cima tenho uma espécie de reumatismo nas pernas e não me posso mexer, e assim estou como se fosse paralítica, o que é uma maçada para todos cá em casa e eu sinto ter que ser toda a gente a aturar-me e a ter que me aceitar que o senhor não imagina. Eu às vezes dá-me um desespero como se me pudesse atirar da janela abaixo, mas eu que figura teria a cair da janela? Até quem me visse cair ria e a janela é tão baixa que eu nem morreria, mas era ainda mais maçada para os outros, e estou a ver-me na rua como uma macaca, com as pernas à vela e a corcunda a sair pela blusa e toda a gente a querer ter pena mas a ter nojo ao mesmo tempo ou a rir se calhasse, porque a gente é como é e não como tinha vontade de ser.

(…)

- e enfim porque lhe estou eu a escrever se lhe não vou mandar esta carta?

O senhor que anda de um lado para o outro não sabe qual é o peso de a gente não ser ninguém. Eu estou à janela todo o dia e vejo toda a gente passar de um lado para o outro e ter um modo de vida e gozar e falar a esta e àquela, e parece que sou um vaso com uma planta murcha que ficou aqui à janela por tirar de lá.

O senhor não pode imaginar, porque é bonito e tem saúde o que é a gente ter nascido e não ser gente, e ver nos jornais o que as pessoas fazem, e uns são ministros e andam de um lado para o outro a visitar todas as terras, e outros estão na vida da sociedade e casam e têm baptizados e estão doentes e fazem-lhe operações os mesmos médicos, e outros partem para as suas casas aqui e ali, e outros roubam e outros queixam-se, e uns fazem grandes crimes e há artigos assinados por outros e retratos e anúncios com os nomes dos homens que vão comprar as modas ao estrangeiro, e tudo isto o senhor não imagina o que é para quem é um trapo como eu que ficou no parapeito da janela de limpar o sinal redondo dos vasos quando a pintura é fresca por causa da água.

Se o senhor soubesse isto tudo era capaz de vez em quando me dizer adeus da rua, e eu gostava de se lhe poder pedir isso, porque o senhor não imagina, eu talvez não vivesse mais, que pouco é o que tenho de viver, mas eu ia mais feliz lá para onde se vai se soubesse que o senhor me dava os bons dias por acaso.

A Margarida costureira diz que lhe falou uma vez, que lhe falou torto porque o senhor se meteu com ela na rua aqui ao lado, e essa vez é que eu senti inveja a valer, eu confesso porque não lhe quero mentir, senti inveja porque meter-se alguém connosco é a gente ser mulher, e eu não mulher nem homem, porque ninguém acha que eu sou nada a não ser uma espécie de gente que está para aqui a encher o vão da janela e a aborrecer tudo que me vêm, valha me Deus.

O António (é o mesmo nome que o seu, mas que diferença!) o António da oficina de automóveis disse uma vez a meu pai que toda a gente deve produzir qualquer coisa, que sem isso não há direito a viver, que quem não trabalha não come e não há direito a haver quem não trabalhe. E eu pensei que faço eu no mundo, que não faço nada senão estar à janela com toda a gente a mexer-se de um lado para o outro, sem ser paralítica, e tendo maneira de encontrar as pessoas de quem gosta, e depois poderia produzir à vontade o que fosse preciso porque tinha gosto para isso.

Adeus senhor António, eu não tenho senão dias de vida e escrevo esta carta só para a guardar no peito como se fosse uma carta que o senhor me escrevesse em vez de eu a escrever a si. Eu desejo que o senhor tenha todas as felicidades que possa desejar e que nunca saiba de mim para não rir porque eu sei que não posso esperar mais.
Eu amo o senhor com toda a minha alma e toda a minha vida. Aí tem e estou a chorar.

Maria José

jeudi 5 mai 2011

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